Sunday, September 27, 2015
FAQ
Disclaimer: no geral, eu tento ser paciente com as pessoas, e explicar as coisas comme il faut. Afinal, se filósofos (e filósofas, ocasionalmente) são obscuros(as), a culpa não é das pessoas em geral. Mas tem gente que abusa da nossa paciência. Além do quê, há uma linha bem pouco tênue entre perguntas de legítima curiosidade e gente querendo pagar de espertinha. A curiosidade é, na maioria de suas ocorrências, uma virtude, então, continuem exercitando-na, mas com cuidado. De nada serve a curiosidade se ela não vier acompanhada de reflexão e espírito crítico.
Q: Filosofia medieval? Mas existia filosofia na Idade Média?
R: Não. Não existia. Só existiam dragões e magos e castelos. Eu que inventei essa coisa de filosofia medieval, só para enganar vocês.
Q: Mas o que é a filosofia medieval?
R: É claro que eu posso fazer um resuminho rápido em 2 minutos, antes que você perca o interesse e comece a jogar algum joguinho no celular. É claro que aqueles livros de mil páginas e aqueles cursos de 90 horas tentando explicar o que é a filosofia medieval são claramente fruto do trabalho de gente preguiçosa, que não se esforça para ser concisa.
Q: Mas as pessoas sabiam escrever na Idade Média?
R: Não. Eu faço meu estudo filosófico a partir de desenhos. Tipo aquelas pinturas rupestres e tal.
Q: Mas... mas filosofia medieval! Você fala latim, então?
R: Falo. Inclusive, ligo semanalmente para o Seu Chico, lá no Vaticano, pra trocar uma idéia. Latim é uma língua perfeita para as interações do dia a dia e a que eu mais uso para interagir com estranhos no transporte público.
Q: Ok, mas você *lê* latim, então?
R: Não. Eu coloco meus textos todos no GoogleTranslate e deixo que ele faça o trabalho por mim. É assim que todos os textos filosóficos que saem publicados pelas grandes editoras são traduzidos; vocês não sabiam? A gente sabe que o GoogleTranslate é uma ferramenta perfeita (afinal, roda no computador). Pra que me dar o trabalho de fazer tudo à moda antiga se tem essa tecnologia linda a nosso dispor?
Q: Mas filosofia medieval tem a ver com essas coisas de Deus e bíblia, né?
R: Isso. Na verdade, minha tese é sobre Deus. Não sei bem por que eu chamo de filosofia, e não de teologia, mas já que ninguém mais percebeu isso até agora, vou continuar enganando os outros.
Q: Mas você acredita em deus?
R: Isso claramente tem tudo a ver com minha pesquisa, cujo objetivo principal é claramente provar a existência de deus; e é claro que acredito. Aliás, meu objetivo final, quando terminar o doutorado, é virar freira, porque é para isso que a filosofia serve.
Q: É verdade que na época medieval as pessoas viviam junto com os animais/viviam muito menos que a gente/que a peste negra era, na verdade, a peste bubônica/etc.?
R: Tudo verdade. E continue perguntando, porque, além de filosofia ser sinônimo de teologia, é também sinônimo de história. Manjo tudo de história. De história e de deus.
Q: Virtudes intelectuais na Idade Média? Mas na Idade Média não houve nenhum progresso científico, então, como assim falar dessas coisas "intelectuais" na Idade Média?
R: Primeiro, porque eu obviamente não tenho nada melhor para fazer e meu objetivo é enganar as pessoas. Segundo: de fato, não aconteceu nada importante na Idade Média, além da peste. A humanidade viveu em um grande vácuo de desenvolvimento de mais de mil anos até que aqueles brilhantes renascentistas vieram com seus lampiões e nos resgataram das trevas. É claro que a gente deve ignorar a multiplicação exponencial de bibliotecas, a fundação das universidades, as grandes navegações etc. Não aconteceu absolutamente nada de importante cientificamente nessa época e minha pesquisa é um engodo.
Q: Virtudes intelectuais. Mas sim! Tem essa coisa da inteligência emocional, que é bem importante. Você fala de emoções e inteligência emocional na sua tese? Porque você deveria. Porque são coisas importantes, sabe. Hoje em dia, a gente foca só no QI, mas já mostraram que tem outros tipos de inteligência e...
R: Sim, minha tese é e-xa-ta-men-te sobre isso. Quando eu falo em "virtudes intelectuais" é óbvio que eu cometi um erro e que o que eu quis dizer foi "emoções e inteligência emocional". Aliás, você não quer aproveitar e escrever minha tese por mim, já que você manja tanto assim do assunto?
Friday, August 28, 2015
Feminismo
Foi justamente a essas perguntas que respondemos (ou tentamos responder) durante a mesa-redonda do 7º CIRFF (Congrès International des Recherches Féministes dans la Francophonie), organizada por minhas colegas Marie-Anne Casselot e Sarah Arnaud e por mim, e da qual participaram Dominique Leydet, Marie-Éveline Belinga, Sarah e eu, intitulada "Devemos sempre ser feministas na filosofia?"
Uma esquematização dos principais problemas enfrentados pelas mulheres na filosofia (e desenvolvido por mim e pela Sarah) será posto online em breve, no site do comité de equidade da Société de Philosophie du Québec. Depois eu coloco uma versão em português aqui.
Thursday, July 30, 2015
Escolástica
Thursday, June 11, 2015
Portas
Wednesday, June 3, 2015
Resenha: The Cambridge Companion to Virtue Ethics
Embora eu talvez recomende este livro para alunas e alunos no final da graduação ou no início da pós-graduação, alguns dos artigos sobre áreas ou tradições específicas podem ser do interesse de pesquisadoras e pesquisadores mais avançados, devido à abordagem que inclui áreas menos discutidas em textos mais tradicionais, como a filosofia chinesa e a ética da virtude nos negócios. Ademais, o foco deste livro na pesquisa contemporânea sobre ética da virtude faz dele uma fote valiosa para pesquisadoras e pesquisadores com diferentes níveis de especialização em ética.
Para ler minha resenha completa (em inglês), clique aqui.
Tuesday, May 12, 2015
Tuesday, April 21, 2015
Erro
Título da conferência: "L'erreur est humaine? Les épistémologies de Buridan"
Wednesday, April 8, 2015
Luta
Friday, March 27, 2015
Luz e verdade
Saturday, March 14, 2015
Isolamento
Friday, February 27, 2015
Universais
Monday, February 2, 2015
R.I.P. Joe Frank Jones III
Na tarde de 20 de janeiro, recebi um e-mail da lista da Society for Philosophy in the Contemporary World anunciando o falecimento do Dr. Joe Frank Jones III, professor e chefe de departamento da Radford University. Um obituário foi publicado alguns dias depois.
Conheci o Joe em 2009, numa conferência em Pine Lake, NY, quando ele ainda era professor no Barton College. Eu era a única mestranda participando da conferência -- a maioria dos participantes eram professores(as), mas havia também alguns(umas) doutorandos(as). Enquanto alguns participantes -- uma participante, em especial -- nem sempre eram gentis, Joe e sua esposa Polly, que o acompanhava, foram extremamente simpáticos e acolhedores.
Na época, eu já estava querendo migrar para longe da fenomenologia, mas Joe me encorajou, me disse que valia a pena estudar Husserl (o que eu estava tentando fazer) e Heidegger (longe de mim!).
Ficamos amigos no Facebook e interagíamos com alguma regularidade. Joe comentava freqüentemente nas minhas (raras) postagens e, vez ou outra, trocávamos idéias sobre questões acadêmicas e políticas. Ele sempre me encorajou a enviar propostas de comunicação para as edições seguintes das conferências anuais da SPCW, e encorajava também meu trabalho filosófico, em geral. Infelizmente, eu nunca mais pude participar de (nem enviar uma proposta para) outro encontro da SPCW, por infelizes conicidências de outros eventos acadêmicos ou planos pessoais.
De todo modo, nas minhas poucas interações "reais" e algumas tantas "virtuais" com Joe, ele sempre foi um acadêmico gentil, inclusivo e encorajador. E, na minha experiência, são poucas as pessoas que a gente conhece trivialmente no mundo acadêmico que são assim.
A filosofia perdeu uma grande pessoa. Os membros da SPCW perderam um grande colega. E eu perdi um pouco daquela voz que aparecia de vez em quando, no Facebook, que me dava um pouquinho mais de motivação para continuar minhas tantas horas de trabalho diário...
Thursday, November 20, 2014
Nesse dia...
Eu já contei minha história pra muitas pessoas e, de tanto tempo ter passado e de tanto eu ter contado, confesso que cheguei àquele ponto em que não sei ao certo quando a decisão foi tomada, nem o porquê exato, mas tem a ver com um contexto bastante especial e com algo que me mantém convencida de que eu tomei a decisão certa.
Antes de 2001, quando comecei minha graduação na PUC-SP, eu nunca tinha tido uma aula de filosofia. No colégio em que eu estudei, não havia filosofia (nem nada que se aproximasse disso) na grade curricular. Fora "O Mundo de Sofia" (...) e algumas palestras do Gabriel Chalita (que foi diretor do meu colégio; não me perguntem!), meus conhecimentos filosóficos eram nulos. Considerando que o conteúdo dessas duas fontes é completamente negligenciável, posso afirmar com segurança que, quando eu me matriculei no curso de filosofia, eu não tinha a menor idéia do que estava fazendo nem do que esperar.
Meus interesses na época eram meio espalhados: as biológicas nunca foram meu forte, mas entre humanas e exatas, a briga era acirrada.
E aí fui parar na filosofia. Minhas intenções na época eram bastante voltadas para a política. Não para a filosofia política (eu nem tinha idéia de o que isso era, à época), mas a política-política, na prática: governo, ONGs etc. Mas logo vi que isso não era pra mim.
Num curso de primeiro ano, acho que um curso de história da filosofia, lemos montes de Platão e Aristóteles. Acho que foi no segundo semestre que lemos a Ética a Nicômaco e a Política. E foi aí que eu entendi o que estava fazendo ali. Conforme eu ia lendo Aristóteles (principalmente a Política, acho), eu ia discordava fortemente de algumas das coisas que ele dizia. Mas os argumentos! Or argumentos aristotélicos eram tão bons, tão bonitos, tão bem construídos! Eu discordava de algumas das conclusões, mas não sabia nem por onde começar a refutar as premissas. Foi ali que eu aprendi, definitivamente, que "achar" alguma coisa não era o bastante; que a genialidade estava justamente na confecção dos argumentos, em como provar que estamos certas. Talvez o problema seja só que eu seja teimosa, mas discordar de alguém de maneira intuitiva mas conceder que seu argumento é convincente e sentir a necessidade de se curvar a ele pelo exercício da razão é uma coisa que só a filosofia conseguiu me ensinar. E foi nesse momento em que eu decidi que era isso que eu queria fazer para o resto da minha vida. Como um colega escreveu uma vez, parafraseando alguém (já não lembro quem): "há mais beleza num argumento que no mundo." Eu ainda acho (talvez ingenuamente) que isso seja verdade.
Não quero romantizar a coisa e ser piegas demais. Eu me arrependi inúmeras vezes dessa decisão ao longo desses 13 anos que se seguiram. Estudar filosofia é difícil, frustrante, exige dedicação e paciência sobre-humanas e a recompensa material, na maioria dos casos, é pouca. Mas a recompensa final, o "momento ah-ha!" em que a gente compreende um argumento, ou em que a gente finalmente consegue refutar um argumento é, apesar de fugaz, umas das experiências mais incríveis que um ser racional pode ter. (Eu sempre concordei com aquela história aristotélica do telos da vida humana e de sua relação direta com o logos e a eudaimonia.)
Dia sim, dia não, quando não me arrependo de ter posto os pés na universidade no dia em que fiz minha matrícula na filosofia, quando não estou fazendo contas no final do mês pra ver se o dinheiro vai dar, eu sinto que é extremamente gratificante poder fazer o que eu faço.
Hoje, uma aluna, que é também uma colega (outra das vantagens da filosofia!), estava falando justamente sobre como os estudos parecem menos chatos (e o trabalho idem) quando a gente faz o que a gente gosta. Ela estava querendo nos lembrar dessa regra tão simples, e que a gente esquece tão frequentemente: o importante é fazer o que a gente gosta. Caveat lector: é importante fazer o que a gente gosta, se a gente tiver um prato de comida duas vezes ao dia e onde morar (e meios de pagar aluguel, conta de luz etc.). Porque, se nos "dia sim" a gente se sente realizada e próxima a essa eudaimonia, nos "dia não", não há beleza de argumento que baste. A filosofia é a melhor pièce de résistance para almas curiosas (e possivelmente torturadas). Mas um prato de comida e o mínimo de dignidade de sobrevivência são as grandes pièces de résistance (e condições sine quibus non) da filosofia.
Acho que o dia de hoje não é nem um "dia sim" nem um "dia não". Vou fingir que nunca ouvi falar do princípio do terceiro excluído e propor que hoje é um dia "talvez". Essa história do dia da filosofia da UNESCO é toda muito bonita, mas infelizmente, a filosofia profissional (que é quase 100% acadêmica) ainda é uma área extremamente aristocrática e, apesar de eu apreciar o esforço da UNESCO em promover a filosofia, acho que a filosofia acadêmica, de maneira geral, se identifica muito pouco com esse ideal de que a “filosofia é uma disciplina que encoraja o pensamento crítico e independente e é capaz de promover uma melhor compreensão do mundo e promover a tolerância e a paz.” (tradução livre do site da UNESCO) Acho tudo isso muito justo e muito bonito. Ficaria mais bonito ainda num discurso de miss. A verdade é que a maioria dos filósofos (e das filósofas) já está bastante ocupada escrevendo tese, preparando aula, orientando aluno e tentando sobreviver num mundo que não se reconhece isso como trabalho importante. Aprecio a idéia da UNESCO em declarar o dia, mas critico um pouco a ingenuidade de como ele foi concebido: por enquanto, escolho não acrescentar à minha lista de afazeres (por sí só frustrantes) "promover a paz mundial". (Acho que alguém entendeu mal o "super-homem" do Nietzsche...)
O mundo acadêmico já é muito cheio de arrogância. Prefiro tentar não inflar meu senso de importância. Meu objetivo atual é entender que diabos Buridan estava propondo em seu comentário à Ética a Nicômaco. Se isso, de algum modo, conseguir levar à paz mundial, eu ficaria bastante surpresa, mas tanto melhor.
Feliz dia mundial da filosofia!
Thursday, September 25, 2014
Lavanderia
Lá nos idos dos anos 00, quando eu ainda estava no meu primeiro mestrado, um professor criticou duramente minha escolha de usar Thomas Kuhn (principalmente A Estrutura das Revoluções Científicas) como uma das principais referências de um dos meus trabalhos de conclusão de mestrado, dizendo, quase ipsis litteris, que aquilo tudo era uma grande bobagem, que tudo o que Kuhn diz é uma porcaria ("bullshit" e "crap" foram as palavras utilizadas pelo Grande Sábio em questão), e que estamos todos(as) cansados(as) de saber disso.
Ok, Senhor Acadêmico. Perdão por ofender seu brilhantismo com uma teoria boba e ultrapassada.
Avancemos alguns anos...
Há umas duas ou três semanas, a Claudine Tiercelin (que, aliás, foi colega do Brilhante Acadêmico acima) começou uma corrente no Facebook. Adaptando uma corrente que já existia, ela perguntou para algumas pessoas (e a coisa chegou a mim) quais os dez livros que as tinham feito começar e continuar a estudar filosofia. Nessa história de corrente de Facebook, as pessoas vão se "tagueando" e foi fácil ir acompanhando as listas das pessoas. Vi listas de colegas da França, do Canadá, dos EUA, do Brasil etc., e pude constatar que A Estrutura das Revoluções Científicas fazia parte da lista de, talvez, 8 a cada 10 pessoas.
Não estou dizendo que fiz uma investigação sistemática, estruturada ou exaustiva do tema, mas as -- talvez poucas -- amostras vieram de várias partes diferentes do mundo, de pessoas com formação completamente diferente da minha. E eis que o Kuhn estava lá, como um pontinho em comum.
É óbvio que isso também não quer dizer que Kuhn não seja ultrapassado, mas a freqüência da menção dA Estrtutura me dá cada vez mais certeza de que, não, o que ele diz não pode ser totalmente classificado como bobagem e descartado porque é filosofia velha, batida. O que Kuhn diz não somente não é trivial, mas, ao lado de Platão, Aristóteles, Descartes, e Kant, teve impacto suficiente na formação das pessoas para merecer esse lugar privilegiado, ao lado dos outros grandes.
Enfim. Não é como se eu estivesse vidrada no placar, mas sinto muito, Senhor Brilhante Acadêmico; o ponto aí foi meu.
Monday, May 12, 2014
Relações
Foi no Colóquio da Société de Philosophie du Québec (SPQ) dentro do 82ø. Encontro da Association Francophone pour le Savoir (ACFAS), na Concordia.
Essa foi, não sem alguma relutância, minha primeira participação em um congresso da ACFAS. Depois de divertir as pessoas durante uns bons 35 minutos falando sobre ontologia e cristologia na Idade Média tardia, o veredito: sobrevivi ao escrutínio dos fenomenólogos e metafisicistas que estavam na (pequeníssima) platéia.
Wednesday, April 30, 2014
Louros
Trabalhamos bastante no projeto nos últimos meses e organizamos uma série de conferências (uma por mês), que foram muito bem-sucedidas.
Ontem, fomos à cerimônia de premiação de engajamento estudantil da universidade e nosso projeto foi premiado na categoria "Sociedade, Comunicação e Educação".
Aos poucos, as coisas vão mudando. No departamento, o pouco de resistência inicial que existia ao projeto já deu lugar ao reconhecimento de sua pertinência.
A gente pode ir devagar, mas a gente vai.
Wednesday, April 16, 2014
Virtudes
Foi a primeira vez que eu tive de apresentar uma parte da minha tese a não-medievistas. Não foi tão bom quanto eu gostaria, mas não foi tão catastrófico quanto eu previa.
O debate que se seguiu foi, na verdade, bastante interessante. Conversar com pessoas de outras especialidades, às vezes, pode ser de uma utilidade incrível.
Quanto maior o nível de especialização que a gente vai atingindo, mais específicas vão ficando, também, as conferências e os diálogos. Embora isso potencialmente enriqueça bastante a pesquisa acadêmica, vai ficando fácil a gente perder de vista a floresta e focar apenas nas árvores. É por isso que, uma vez ou outra, apresentar o que a gente faz a um público "leigo" (muitas aspas, porque não é como se não tivéssemos ao menos uma base em comum) é um bom exercício: tanto para que a gente pratique a vulgarização de nossa pesquisa quanto para que a gente olhe para um pouco além dos nossos interesses. Assim, também são cultivadas as virtudes epistêmicas.
Thursday, February 13, 2014
Vivência
Era uma vez uma jovem na filosofia (embora não tão jovem... na casa dos trinta!), que, após ter assistido à conferência de um amigo, teve o prazer de ir jantar com o amigo conferencista, três outros amigos e três "senhores" professores universitários.TL; DR: Não é nada (nada!) fácil para as mulheres na filosofia. Com o tempo, vai melhorando, mas nunca é fácil.Habituada a esse tipo de situação em razão de seu percurso em filosofia (a única mulher à mesa), a jovem da filosofia não se preocupava mais que o normal. Afinal, com o tempo, ela aprendeu a tomar seu lugar em um mundo de universitários homens.
Mesmo sabendo que ela talvez teria de fazer algum esforço e se impor nas discussões, a jovem da filosofia estava longe de duvidar que a situação seria tão caricatural:
Enquanto as discussões políticas iam bem, a cada vez que ela lançava um idéia, ela era habilmente ignorada. A discussão continuava como se ela não tivesse dito nada. Se não fosse um de seus amigos que, se dando conta do ocorrido, fez retransmitir regularmente suas falas, tomando o cuidado de dizer "como a jovem da filosofia acabou de dizer, [inserir aqui as ditas falas, até então ignoradas]". A intervenção masculina tendo um efeito instantâneo, a discussão prosseguia, então, levando em conta o que a jovem da filosofia havia dito.
Naquela noite, ela gostaria de ter podido filmar a cena, de tanto que o sexismo era evidente. Ela quase ria, de tanto que estava acostumada àquilo! Era uma dessas noites em que ela não tinha vontade de ter raiva, ela estava apenas um pouco cansada daquela repetição.
O jantar terminou e a noite continuou em outro tom, cheia de amizades, risos e muitas cervejas.
Nos dias que se seguiram, a jovem da filosofia contou a anedota muitas vezes, sublinhando a que ponto o sexismo era "apenas óbvio demais" naquela noite e que isso era quase engraçado.
A jovem da filosofia constatou que ela tinha adquirido ferramentas o bastante para compreender as dinâmicas em jogo durante aquele jantar e saber que não era ela o problema.
E ela estava bem orgulhosa de si mesma, de todo o seu percurso ao longo de anos, sabendo que, quando ela ainda era estudante, ela teria voltado de uma noite assim se sentindo idiota, insignificante e incapaz de ter uma conversa política inteligente. Mas hoje: não, senhora! Ela sabe que ela é inteligente e absolutamente apta a discorrer sobre o político e a política (além do mais, ela sabe muito bem qual é a diferença entre os dois! Pouco importa o que aqueles senhores teóricos da política pensam sobre isso).
Ora, nos dias seguintes, ela pensou novamente sobre esse jantar e sobre cada vez em que esse tipo de coisa lhe aconteceu: em cursos, conferências, happy hours entre companheiros de classe ou entre colegas etc.
E as inseguranças e as dores voltaram à superfície e a jovem da filosofia teve dificuldade em escrever os textos que tinha de escrever (na verdade, ela não tocou seu lápis), e ela se pôs a duvidar da pertinência de seu projeto de fazer um doutorado e...
Enfim, a jovem da filosofia constata que, apesar do caminho percorrido, essas coisas deixam cicatrizes.
Wednesday, February 5, 2014
Reação
É por isso que, mesmo depois de alguma resistência inicial do departamento, quatro colegas e eu nos reunimos para fundar o grupo "Fillosophie", para promover o trabalho das pós-graduandas no departamento, encorajar as graduandas a continuar seus estudos em filosofia, e mudar a atmosfera do departamento.
Ontem tivemos nosso primeiro evento, que foi um sucesso. As outras universidades em Montreal gostaram da idéia e estamos encorajando todas a copiá-la. Não seria nada mal se ela se expandisse para esses cantos da América do Sul. Mas uma coisa de cada vez...
Monday, February 3, 2014
Humildade epistêmica
E tem aquela história de Sócrates e do sábio que é sábio porque não sabe que é sábio, "só sei que nada sei", ou qualquer variação anedótica da Apologia que constrói essa interpretação aí. Independentemente dos problemas óbvios de interpretação (fundamentalmente, faz muito pouco sentido crer que "Sócrates é sábio se e somente se ele acredita não ser sábio" ou que "Sócrates é sábio se e seomente se ele acredita não saber nada"), a humildade epistêmica ainda é vista como algum tipo de virtude. Ela é, no mínimo, o oposto da arrogância epistêmica.
Essa humildade epistêmica tem uma importância fundamental na filosofia da ciência, por exemplo, na avaliação de risco epistêmico e na reflexão sobre nossa construção de enunciados científicos baseados em conhecimentos produzidos por nossas próprias faculdades, e na idéia de que novas teorias científicas vêm sido elaboradas, e há, possivelmente, sempre novas alternativas de interpretação para substituir as que temos presentemente etc.
Mas a humildade epistêmica também pode servir de guia para a moralidade, se considerarmos que nossos juízos morais (no mínimo, alguns deles) são baseados em crenças (opiniões) e/ou conhecimentos -- sendo simplista e deixando de lado, é claro, possíveis problemas meta-éticos e objeções com bases céticas.
No fundo, o que quer que tenha acontecido no caso Woody Allen, com base nas informações que temos a nossa disposição, não temos como ter conhecimento (em algum sentido estrito) sobre o que realmente aconteceu entre Allen e Dylan Farrow (assim como não conhecemos, em toda sua extensão, todo o "barraco" entre Woody Allen e Mia Farrow). O mesmo vale para quaisquer outros casos controversos, como escândalos políticos. Um dos grandes problemas que temos ao avaliar conhecimento por testemunho é quando temos dois testemunhos contrários e não conseguimos avaliar objetivamente qual é válido/verdadeiro/mais apto. Podemos, é claro, apelar para as paixões (no caso, para a "fã-zice" incondicional), mas isso vai radicalmente contra a idéia de humildade epistêmica.
É importante evitar a arrogância epistêmica por razões como as que dá Ingrid Robeyns, quando descreve a maneira como lidamos com e compreendemos alguns tipos de experiências:
Minha preocupação é que essa categoria de experiências, diferenças, práticas e outras características da vida humana que não conseguimos entender sem a experiência de primeira pessoa é muito maior que o que geralmente presumimos. E, consequentemente, acreditamos que sabemos muito mais do que realmente sabemos. E uma outra consequência é que muito freqüentemente erramos em nossos juízos sobre aspectos de vida de pessoas significativamente diferentes de nós. De alguma maneira, me parece sábio e, possivelmente, uma pré-condição para a justiça social, que re-habilitemos a humildade epistêmica no seio de nossas práticas educacionais e sociais.*
Em seu blog, Stephen Mumford nos dá uma idéia de o que está em jogo no caso de verdades incognoscíveis (notem, no entanto, que ele não está falando especificamente do caso de Allen ou similar, mas sim de verdades incognoscóveis em geral). Ele diz:
Eu não tenho dúvida de que alguns dirão que isso não importa. Se não temos como saber qual das duas opiniões é verdadeira, há alguns que dizem que é uma escolha sem sentido. Alguns de nós, entretanto, não pensamos assim. A existência dessas verdades incognoscíveis, além de nossa capacidade de apreensão, nos enchem de um sentimento de espanto e fascinação. E um pouco de humildade epistêmica não é algo ruim, afinal.*
Isso não quer dizer que a discussão de casos como o de Woody Allen deva ser "tucanada". Mas imaginação moral e humildade epistêmica continuam, de alguma maneira, sendo vistas como características da pessoa sábia. Às vezes, o trabalho delas é apenas dissuadir as pessoas de, num afã de querer parecer descoladas, escrever bobagens em blogs, no twitter, no Facebook etc. Às vezes, o melhor a fazer pode ser nos resguardar humildemente em uma posição de assombro, espanto, fascínio e admiração em relação a opiniões que não podemos construir. Não parece sábio sacrificar virtudes em prol da web 2.0.
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* traduções minhas.



























