Não faz muito tempo, o New York Times inaugurou uma seção chamada "The Stone", que é uma seção dedicada a editoriais de filósofos. Criticou-se bastante essa iniciativa e, mais exatamente, o resultado final dela, que foi inaugurada com um texto particularmente hediondo do Simon Critchley. E minha opinião é compartilhada pela grande maioria dos filósofos e (aspirantes a) nos EUA, mas sempre tem que goste. Não desgosto do Critchley. Ele é um bom esteta/teórico crítico/que seja, mas esse textinho para o NYT não agradou muito.
Mazelas à parte, o segundo texto da série, intitulado "On Forgiveness" (Sobre o Perdão), do Charles L. Griswold, é bem interessante. Talvez tenha calhado de eu achar interessante justamente porque na época em que o artigo foi publicado (há mais ou menos um mês), eu estava lendo Forgiveness and Mercy, um ótimo livro de Jeffrie Murphy e Jean Hampton, que Griswold menciona em seu texto para o NYT.
Forgiveness and Mercy é um livro caro, e que precisa desesperadamente de uma sequência. Explico: o livro, que é uma espécie de diálogo acadêmico entre Hampton e Murphy, foi publicado em 1988 e tem insights fenomenais sobre as relações entre o perdão, a vingança, o ódio, a justiça (especialmente a justiça retributiva) e a misericóridia. Mas é um livro curtinho e que tem muitos temas que, se melhor desenvolvidos, poderiam virar outros grandes livros. Murphy e Hampton infelizmente não poderão escrever a sequência, pois Hampton faleceu precocemente em 1996. Os temas estão aí pro pessoal da ética, filosofia política e filosofia do direito trabalhar em cima.
O livro inclui um capítulo final interessantíssimo sobre a misericórdia, que evoca o problema da aparente contradição entre justiça e misericórdia divinas levantada por Santo Anselmo. Posto o problema aqui nos próximos dias...
Para ler mais:
MURPHY, Jeffrie; HAMPTON, Jean. Forgiveness and Mercy. Cambridge University Press, 1988/1998. 208pp. (Sem tradução para o português)
Saturday, January 15, 2011
Wednesday, December 15, 2010
ScienceBlogs + Grande Diretório da Ciência Brazuca no Twitter 2010
Agradecendo rapidamente ao pessoal do ScienceBlogsBr por ter feito uma ótima compilação e publicado o Grande Diretório da Ciência Brazuca no Twitter 2010, incluindo, entre outros, esta que vos escreve.
Recomendo sempre a leitura do ScienceBlogs, e seguir o pessoal da lista no Twitter. Não é ciência deturpada para ser pop. E não é muito pomposa falando dialetos incompreensíveis.
Recomendo sempre a leitura do ScienceBlogs, e seguir o pessoal da lista no Twitter. Não é ciência deturpada para ser pop. E não é muito pomposa falando dialetos incompreensíveis.
Sunday, December 12, 2010
Rapidinhas de Bioética
Já entrando num esquema de férias, aqui vão duas rapidinhas de bioética.
A primeira é sobre a 2a. edição da coletânea A Companion to Bioethics, editada pela Helga Kuhse e pelo Peter Singer, os mesmo editores de Bioethics: an anthology.
Como é comum em livro de bioética (acho que pela própria natureza dos assuntos tratados, que são revisados com frequência), essa segunda edição é bem melhor e mais completa que a primeira, e complementa bem essa antologia dos mesmo editores que eu citei acima.
Para que lê inglês, tem uma resenha legal no periódico Metapsychology. A resenha foi revisada por mim, então, eu garanto. (hehe)
A segunda: eu já tinha comentado aqui sobre um teólogo que foi meu professor de bioética nos EUA. Ele acaba de lançar um livro sobre bioética aplicada principalmente a casos envolvendo UTIs neo-natais. Já comprei, mas ainda não recebi o livro, então ainda não posso dar mais detalhes. Mas eu garanto a qualidade do trabalho do autor (um dos professores mais brilhantes que eu tive). O livro se chama Too Expensive to Treat? Finitude, Tragedy, and the Neonatal ICU, infelizmente sem previsão de lançamento da tradução em português, mas baratinho na Amazon (clicar no link acima).
Sunday, December 5, 2010
Big Bang Theory: Psicologismo
No episódio 3 da 4a. temporada da série Big Bang Theory que foi ao ar aqui nos EUA nessa semana que passou (deve demorar um pouquinho para chegar no Brasil, mas fiquem atentos!), Sheldon tem uma briga com sua "namorada" Amy Farrah Fowler, e diz que ela está usando uma teoria psicologista, e acrescenta que o psicologismo foi refutado por Gottlob Frege no final do século XIX.
Eu fui ao delírio com o comentário. Lógico. Especialmente porque minhas primeiras aventuras filosóficas nos idos de 2003 tinham a ver justamente com Frege e sua refutação do psicologismo. "A quem interessar possa", vou citar a mim mesma, de um texto de 2005 (não-publicado):
Eu fui ao delírio com o comentário. Lógico. Especialmente porque minhas primeiras aventuras filosóficas nos idos de 2003 tinham a ver justamente com Frege e sua refutação do psicologismo. "A quem interessar possa", vou citar a mim mesma, de um texto de 2005 (não-publicado):
"O psicologismo é um movimento filosófico que surgiu na Alemanha após a morte de Hegel, em 1831, quando, em reação ao antigo idealismo, a filosofia traçou seus rumos opondo-se ao caráter sistemático e abstrato do pensamento de Hegel, instituindo uma busca pelo concreto e pelo real, que se dividiu em três principais tendências: o anti-racionalismo, a teoria da ciência e o psicologismo.
"O anti-racionalismo, que tem como principais representantes Kierkegaard, Nietzsche e Schopenhauer, é um movimento que elabora uma crítica extrema aos poderes da razão. Essa reação ao pensamento que considerava o real como sendo, em última análise, racional, e a razão como sendo, portanto, capaz de conhecer o real e de chegar à verdade sobre a natureza das coisas é o que o anti-racionalismo tem em comum com as duas outras tendências já citadas.
"A teoria da ciência “é um ramo da filosofia centrado em um exame crítico das ciências: seus métodos e resultados”[1]. Esse movimento visa estabelecer o que é pensamento com base na ciência e, para tal, considera-a como objeto da reflexão filosófica. Alguns de seus representantes são Bernard Bolzano, Franz Brentano e Gottlob Frege, além dos filósofos Neo-Kantianos da Escola de Marburgo, Hermann Cohen e Paul Natorp, cujos temas eram essencialmente lógicos, epistemológicos e metodológicos. Todos eles, à exceção de Brentano, estabeleceram formas de crítica ao psicologismo.
"O psicologismo é um termo que foi usado pela primeira vez por H.J.E. Erdmann em 1866 para caracterizar a filosofia de F.E. Beneke. Este conceito, porém, é um conceito crítico que, na verdade, tem como termo originário o “anti-psicologismo”. Fato é que os chamados autores “psicologistas” não se autodenominavam desta forma, mas foram assim classificados pelos anti-psicologistas. Possivelmente, o primeiro autor a usar este conceito em sentido crítico (como tendência a se fundar a lógica na psicologia) foi Bolzano. Há muitos tipos diferentes de psicologismo[2], que podemos reduzir a: psicologismo lógico, no qual se fundamenta a lógica na psicologia, reduzindo-se as leis lógicas às psicológicas; psicologismo epistemológico, que faz depender a atribuição de valores de verdade às leis psicológicas; e psicologismo semântico, no qual os sentidos dos enunciados são interpretados como entidades psicológicas."
Deu pra ter uma ideia de como é a coisa. Sheldon, portanto, critica Amy por ela achar que pode reduzir toda a ciência teória e os processos da razão que são necessários à racionalidade científica a puros processo biológicos-neurológicos. Sheldon faz bem e rebate com Frege. Mas, se me for permitido extrapolar um pouco a questão, Sheldon também não é 100% perfeito: ele se esquece de que suas teorias são, em sua maioria, extremamente fisicalistas, que acabam sendo tão reducionistas quanto o psicologismo. Mas quem sabe isso ainda apareça em outro episódio da série. Fico aguardando eles abordarem o hilomorfismo aristotélico...
[1] Robert AUDI. The Cambridge dictionary of philosophy. 2nd Edition. Cambridge: Cambridge University Press, 1998. p. 700. Tradução livre.
[2] Cf. Martin KUSCH. Psychologism. London: Routledge, 1995. P.108: “First of all, writers distinguished between different forms of psychologism according to the fields of philosophy and the human sciences in which psychologism needed to be combated. Thus one finds ‘psychologism’ qualified as ‘metaphysical’, ‘ontological’, ‘epistemological’, ‘logical’, ‘ethical’, ‘aesthetic’, ‘sociological’, religious’, ‘historical’, ‘mathematical’, ‘pedagogical’ and ‘linguistic’.”
Saturday, November 27, 2010
Das mazelas da vida filosófica...
Para quem lê inglês e tem interesse em entender as mazelas da vida filosófica, este é um blog excelente (e divertidíssimo):
Philosophers Anonymous
Divirtam-se.
Philosophers Anonymous
Divirtam-se.
Tuesday, November 2, 2010
Princeton: Aborto
No post anterior, fiz uma referência rápida a como moral, prática e política pública têm funções bem diferentes em debates sobre bioética. Mas aí esqueci de mencionar a ótima conferência sobre a questão do aborto a que eu fui em Princeton, em outubro: Open Hearts, Open Minds and Fair Minded Words, que contou com a participação de grandes nomes como Peter Singer, John Finnis e Cathleen Kaveny.
Para quem tiver interesse, vídeos das conferências estão disponíveis aqui.
Para quem tiver interesse, vídeos das conferências estão disponíveis aqui.
Tuesday, October 12, 2010
Bioética: moral x políticas públicas
Eu não imaginava que em época de eleições presidenciais, o Brasil ia acabar ficando em polvorosa por conta da questão do aborto. Mas aí...
Questões de bioética são muito importantes, mas muito mal analisadas na filosofia. Parte do motivo é que bioeticistas não se importam muito em estudar metaética ou ética normativa. E aí a coisa fica difícil. É como se um biólogo que pesquisa grandes mamíferos se recusasse a estudar qualquer coisa sobre células ou reações que ocorrem em nível celular. Ou um geômetra que se recusasse a aprender a tabuada. Não rola. Os argumentos ficam fracos.
Felizmente, há exceções. Uma das exceções é um teólogo (mas que também tem formação em filosofia) com quem eu tive aula. Ele propunha que nós dividíssemos qualquer questão bioética em três camadas: 1) status moral, 2) uso, tratamento e morte, 3) política pública.
A primeira categoria é teórico-normativa, e tem a ver com o status moral da entidade sendo examinada (fetos, no caso da questão do aborto, animais, no caso da polêmica em torno de pesquisas em animais, pessoas com morte cerebral, por exemplo, no caso de debates sobre eutanásia, etc.). A segunda categoria tem um tom mais prático, e se relaciona com a permissibilidade em vista do status moral discutido em 1. A terceira categoria se dirige às práticas públicas e à viabilidade dessas práticas.
O problema que eu vejo com muitos argumentos levantados por essa discussão política é que eles fazem uma verdadeira mistura de 1, 2 e 3, como que atirando para todos os lados, para convencer as pessoas (tanto de um lado quanto de outro). É interessante ver, entretanto, que mesmo quando analisamos opiniões de pessoas que são radicalmente contra ou a favor de uma determinada posição em 1 e 2, elas não têm uma posição necessariamente consistente em 3. Isso porque no nível público temos que fazer concessões devido à limitação de recursos governamentais.
Para quem se interessa pelo tema, uma das melhores leitura é Bioethics: an anthology (ed. Helga Kuhse e Peter Singer; Oxford: Wiley-Blackwell, 2006). Mas a segunda edição, que é bem melhor que a primeira.
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