Tuesday, January 21, 2014

Sexismo

Há menos de um mês, eu escrevi sobre a morte do Peter Geach (e, principalmente, linquei para os obituários). Sugeri, como leitura, o obituário do Guardian e o do Haldane. Também comecei meu texto com:
"Se não fosse pela Elizabeth Anscombe (coincidentemente!), eu diria que a pessoa que mais mudou (embora indiretamente) o rumo dos meus interesses acadêmicos nos últimos anos foi Peter Geach."
Notem que eu ressalto a importância da Anscombe na minha formação. Ela não foi menos importante na história da filosofia. Embora o próprio Haldane se contenha e diga da Anscombe que ela*
"certamente deve ser a maior filósofa mulher que conhecemos"
Roger Scruton é menos econômico em sua avaliação, e diz que Anscombe foi, 
"talvez, a última grande filósofa que escreveu em língua inglesa." 
Em inglês, Scruton diz "perhaps the last great philosopher writing in English", sem especificar gênero: a última grande pessoa a escrever filosofia em língua inglesa.

Anscombe foi aluna de Wittgenstein, a grande autoridade em sua obra. Editou e traduziu seus livros para a língua inglesa. Dizem que Anscombe cunhou o termo "consequencialismo". Anscombe é um dos maiores nomes do tomismo analítico. Anscombe é uma figura-chave para a ética da virtude: atribui-se a seu "Modern Moral Philosophy" o resgate do interese pelo assunto. Há essa lenda de que C. S. Lewis deixou de escrever sobre teologia depois de perder um debate para Anscombe. O artigo da Stanford Encyclopedia of Philosophy começa descrevendo Anscombe como uma das mais brilhantes filósofas (novamente, sem especificação de gênero, em inglês) do século XX.

E eis que.

E eis que o Telegraph publica um obituário do Peter Geach em que o autor diz, sem qualquer qualificação, que
"sem as milhares de horas de conversa que Anscombe teve com ele [Geach], a filosofia dela jamais teria atingido a eminência que atingiu." 
E qual indício que temos disso? Qual o argumento oferecido pelo autor do obituário? Nenhum. E nenhum.

Isso é uma indicação de que o sexismo na filosofia não está só dentro da filosofia, mas transborda nos meios de comunicação, nas mãos de gente incompetente (há outros problemas graves com o conteúdo do obituário, alguns deles sugeridos nos comentários dos leitores do Telegraph ao final da página). Infelizmente (?), Anscombe não é a única a sofrer esse tipo de violência de gente desqualificada.

Porém, como nem tudo está perdido, o Eric Schliesser nos faz o favor de levantar o ponto absurdo do texto do Telegraph e elaborar um pouco suas críticas a ele. O texto de Schliesser começa com uma idéia bem pertinente:
"Em uma curiosa falta de simetria, o obituário não atribui a Anscombe nenhuma responsabilidade pela eminência ou pelas realizações de Geach."
Infelizmente, o obituário do Telegraph não é assinado, pois eu gostaria de saber quem escreveu tamanha atrocidade. Resta que nos consolemos com o texto do Schliesser (em inglês)

-------------------------------------------
*todas as traduções são traduções minhas

Thursday, January 9, 2014

De Beauvoir

Google doodle de hoje celebrando Simone de Beauvoir no que seria seu centésimo-sexto aniversário.

É raro que o Google celebre filósofos. É mais raro ainda que as pessoas, em geral, celebrem filósofAs. Um bom começo de 2014.

Monday, December 30, 2013

Auto-confiança

Temperaturas extremas no hemisfério norte (-30°C, alguém?) e no hemisfério sul (acho 38°C igualmente desnecessário) e cadê motivação para escrever?

Aí, quando a gente encontra a motivação, bate aquele desespero paralisador sobre a tese, o feedback da banca, a carreira acadêmica etc.

Nessas horas, sempre releio esse post (em inglês). Tem coisas bem importantes aí para a gente repetir como mantra três vezes por dia, no mínimo.

Um trecho:

"Não posso esperar fazer a tese de doutorado perfeita, então, preciso parar de tentar. E eu também sequer deveria querer isso, porque ela será menos lida que um e-book auto-publicado sobre a história das escovas para higienização de banheiros. Eu também não posso agradar a todo mundo. E eu também não deveria querer, a não ser que meu objetivo seja produzir o trabalho mais banal e estéril da história."

-- que é minha tradução livre de:

"I cannot expect to write a perfect PhD, so I need to stop trying. Nor should I want to, since it’ll be read less than a self published ebook on the history of toilet brushes. I also cannot please everyone. Nor should I want to, unless my aim is to produce the most sanitised, banal piece of work in history."

Um 2014 produtivo a todos.

Saturday, December 28, 2013

R.I.P. Peter Geach

Se não fosse pela Elizabeth Anscombe (coincidentemente!), eu diria que a pessoa que mais mudou (embora indiretamente) o rumo dos meus interesses acadêmicos nos últimos anos foi Peter Geach. A descoberta do tomismo analítico foi o penúltimo empurrãozinho que faltava para minha conversão à filosofia medieval.

E eis que, dia 21 de dezembro agora, morreu Peter Geach.

O Guardian publicou um obituário interessante, enfatizando a importância de Geach como filósofo católico.

John Haldane também escreveu um obituário, publicado no blog do Leiter, ressaltando as contribuições filosóficas de Geach.

Tendo feito um curso com o Haldane, arriscaria dizer que ele deve ser mais católico que o Geach (mas vá saber...), mas o texto bem curto dele dá uma idéia bem mais ampla, se mais especializada, das contribuições filosóficas de Geach, para além do tomismo analítico. Quem já ouviu falar do problema Frege-Geach (mais aqui) sabe bem disso...

Monday, December 2, 2013

Riso

Não tenho nada a dizer sobre esses ditos comediantes que adoram fazer piada sobre estupro, gays, mulheres feias, gente pobre etc. É importante que eles sejam denunciados (e respondam) pelos crimes que cometem, mas - ao menos atualmente - não tenho disposição para ficar argumentando contra esse tipo de gente.

Prefiro, então, só citar Calvin Normore, um dos grandes professores que tive aqui em Montreal:

"What's the function of laughter in human life? Well, one key function I think it is to level power. We laugh at the powerful and in laughing at the powerful we to some extent redress their power by making them seem and therefore making us behave with respect to them less powerful than they are. Okay, now when you laugh at people who are powerless, then you to some extent disempower them further."
(Daqui: https://www.youtube.com/watch?v=KB7n9iPxKIQ)

Basta.

Tuesday, November 19, 2013

Filosofia do direito

Confesso que filosofia do direito não é minha praia. Minha cabeça dói com lembranças pavorosas só de pensar em Hart e Dworkin. Estive ao lado de John Finnis em agosto passado e, meu instinto, na hora que bateu o "fight or flight" (i.e. reação de lutar ou fugir) foi me esconder, para evitar ficar presa em uma conversa interminável sobre direito natural e filosofia. Azar o meu, eu sei. Walzer e Rawls até me descem melhor, mas Raz já me causa desgosto. Mas é isso: a gente tem de escolher nossas batalhas. Eu fico com a ética e a epistemologia e deixo a filosofia do direito para os mais corajosos.

Para quem tem mais sangue frio que eu e se interessa por esses temas e autores, o Matheus Silva fez, já há algum tempo, no blog Crítica na Rede, uma lista dos livros (clássicos?) de filosofia do direito disponíveis em tradução para o português, com links para onde encontrá-los.

Talvez haja uma lista mais atualizada em algum lugar da internet. Se eu encontrar, atualizo.

Divirtam-se (?).