Wednesday, February 5, 2014

Reação

E tem aquelas pessoas (=eu), que não ficam só reclamando de sexismo, sexismo e sexismo e esperando que alguém, peferencialmente montado em um cavalo branco, venha fazer alguma coisa a respeito.

É por isso que, mesmo depois de alguma resistência inicial do departamento, quatro colegas e eu nos reunimos para fundar o grupo "Fillosophie", para promover o trabalho das pós-graduandas no departamento, encorajar as graduandas a continuar seus estudos em filosofia, e mudar a atmosfera do departamento.

Ontem tivemos nosso primeiro evento, que foi um sucesso. As outras universidades em Montreal gostaram da idéia e estamos encorajando todas a copiá-la. Não seria nada mal se ela se expandisse para esses cantos da América do Sul. Mas uma coisa de cada vez...

Monday, February 3, 2014

Humildade epistêmica

Essa semana, voltou à tona a tal história do Woody Allen e das alegações de abuso sexual e barracos outros com Mia Farrow e sua prole. E, como haveria de ser, todo mundo tinha uma opinião a dar: fãs incondicionais de Woody Allen de um lado (nem vou questionar aqui a idéia de "fã-zice" incondicional, que me parece absurda em si), e as pessoas que parecem exercer algum tipo de precaução em defender as pessoas que acusam Allen. Não vou entrar no mérito, aqui, de se são "vítimas" ou "supostas vítimas" (ugh!), justamente pelo que vem abaixo.

E tem aquela história de Sócrates e do sábio que é sábio porque não sabe que é sábio, "só sei que nada sei", ou qualquer variação anedótica da Apologia que constrói essa interpretação aí. Independentemente dos problemas óbvios de interpretação (fundamentalmente, faz muito pouco sentido crer que "Sócrates é sábio se e somente se ele acredita não ser sábio" ou que "Sócrates é sábio se e seomente se ele acredita não saber nada"), a humildade epistêmica ainda é vista como algum tipo de virtude. Ela é, no mínimo, o oposto da arrogância epistêmica.

Essa humildade epistêmica tem uma importância fundamental na filosofia da ciência, por exemplo, na avaliação de risco epistêmico e na reflexão sobre nossa construção de enunciados científicos baseados em conhecimentos produzidos por nossas próprias faculdades, e na idéia de que novas teorias científicas vêm sido elaboradas, e há, possivelmente, sempre novas alternativas de interpretação para substituir as que temos presentemente etc.

Mas a humildade epistêmica também pode servir de guia para a moralidade, se considerarmos que nossos juízos morais (no mínimo, alguns deles) são baseados em crenças (opiniões) e/ou conhecimentos -- sendo simplista e deixando de lado, é claro, possíveis problemas meta-éticos e objeções com bases céticas.

No fundo, o que quer que tenha acontecido no caso Woody Allen, com base nas informações que temos a nossa disposição, não temos como ter conhecimento (em algum sentido estrito) sobre o que realmente aconteceu entre Allen e Dylan Farrow (assim como não conhecemos, em toda sua extensão, todo o "barraco" entre Woody Allen e Mia Farrow). O mesmo vale para quaisquer outros casos controversos, como escândalos políticos. Um dos grandes problemas que temos ao avaliar conhecimento por testemunho é quando temos dois testemunhos contrários e não conseguimos avaliar objetivamente qual é válido/verdadeiro/mais apto. Podemos, é claro, apelar para as paixões (no caso, para a "fã-zice" incondicional), mas isso vai radicalmente contra a idéia de humildade epistêmica.

É importante evitar a arrogância epistêmica por razões como as que dá Ingrid Robeyns, quando descreve a maneira como lidamos com e compreendemos alguns tipos de experiências:
Minha preocupação é que essa categoria de experiências, diferenças, práticas e outras características da vida humana que não conseguimos entender sem a experiência de primeira pessoa é muito maior que o que geralmente presumimos. E, consequentemente, acreditamos que sabemos muito mais do que realmente sabemos. E uma outra consequência é que muito freqüentemente erramos em nossos juízos sobre aspectos de vida de pessoas significativamente diferentes de nós. De alguma maneira, me parece sábio e, possivelmente, uma pré-condição para a justiça social, que re-habilitemos a humildade epistêmica no seio de nossas práticas educacionais e sociais.*

Em seu blog, Stephen Mumford nos dá uma idéia de o que está em jogo no caso de verdades incognoscíveis (notem, no entanto, que ele não está falando especificamente do caso de Allen ou similar, mas sim de verdades incognoscóveis em geral). Ele diz:
Eu não tenho dúvida de que alguns dirão que isso não importa. Se não temos como saber qual das duas opiniões é verdadeira, há alguns que dizem que é uma escolha sem sentido. Alguns de nós, entretanto, não pensamos assim. A existência dessas verdades incognoscíveis, além de nossa capacidade de apreensão, nos enchem de um sentimento de espanto e fascinação. E um pouco de humildade epistêmica não é algo ruim, afinal.*

Isso não quer dizer que a discussão de casos como o de Woody Allen deva ser "tucanada". Mas imaginação moral e humildade epistêmica continuam, de alguma maneira, sendo vistas como características da pessoa sábia. Às vezes, o trabalho delas é apenas dissuadir as pessoas de, num afã de querer parecer descoladas, escrever bobagens em blogs, no twitter, no Facebook etc.  Às vezes, o melhor a fazer pode ser nos resguardar humildemente em uma posição de assombro, espanto, fascínio e admiração em relação a opiniões que não podemos construir. Não parece sábio sacrificar virtudes em prol da web 2.0.

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* traduções minhas.

Tuesday, January 21, 2014

Sexismo

Há menos de um mês, eu escrevi sobre a morte do Peter Geach (e, principalmente, linquei para os obituários). Sugeri, como leitura, o obituário do Guardian e o do Haldane. Também comecei meu texto com:
"Se não fosse pela Elizabeth Anscombe (coincidentemente!), eu diria que a pessoa que mais mudou (embora indiretamente) o rumo dos meus interesses acadêmicos nos últimos anos foi Peter Geach."
Notem que eu ressalto a importância da Anscombe na minha formação. Ela não foi menos importante na história da filosofia. Embora o próprio Haldane se contenha e diga da Anscombe que ela*
"certamente deve ser a maior filósofa mulher que conhecemos"
Roger Scruton é menos econômico em sua avaliação, e diz que Anscombe foi, 
"talvez, a última grande filósofa que escreveu em língua inglesa." 
Em inglês, Scruton diz "perhaps the last great philosopher writing in English", sem especificar gênero: a última grande pessoa a escrever filosofia em língua inglesa.

Anscombe foi aluna de Wittgenstein, a grande autoridade em sua obra. Editou e traduziu seus livros para a língua inglesa. Dizem que Anscombe cunhou o termo "consequencialismo". Anscombe é um dos maiores nomes do tomismo analítico. Anscombe é uma figura-chave para a ética da virtude: atribui-se a seu "Modern Moral Philosophy" o resgate do interese pelo assunto. Há essa lenda de que C. S. Lewis deixou de escrever sobre teologia depois de perder um debate para Anscombe. O artigo da Stanford Encyclopedia of Philosophy começa descrevendo Anscombe como uma das mais brilhantes filósofas (novamente, sem especificação de gênero, em inglês) do século XX.

E eis que.

E eis que o Telegraph publica um obituário do Peter Geach em que o autor diz, sem qualquer qualificação, que
"sem as milhares de horas de conversa que Anscombe teve com ele [Geach], a filosofia dela jamais teria atingido a eminência que atingiu." 
E qual indício que temos disso? Qual o argumento oferecido pelo autor do obituário? Nenhum. E nenhum.

Isso é uma indicação de que o sexismo na filosofia não está só dentro da filosofia, mas transborda nos meios de comunicação, nas mãos de gente incompetente (há outros problemas graves com o conteúdo do obituário, alguns deles sugeridos nos comentários dos leitores do Telegraph ao final da página). Infelizmente (?), Anscombe não é a única a sofrer esse tipo de violência de gente desqualificada.

Porém, como nem tudo está perdido, o Eric Schliesser nos faz o favor de levantar o ponto absurdo do texto do Telegraph e elaborar um pouco suas críticas a ele. O texto de Schliesser começa com uma idéia bem pertinente:
"Em uma curiosa falta de simetria, o obituário não atribui a Anscombe nenhuma responsabilidade pela eminência ou pelas realizações de Geach."
Infelizmente, o obituário do Telegraph não é assinado, pois eu gostaria de saber quem escreveu tamanha atrocidade. Resta que nos consolemos com o texto do Schliesser (em inglês)

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*todas as traduções são traduções minhas

Thursday, January 9, 2014

De Beauvoir

Google doodle de hoje celebrando Simone de Beauvoir no que seria seu centésimo-sexto aniversário.

É raro que o Google celebre filósofos. É mais raro ainda que as pessoas, em geral, celebrem filósofAs. Um bom começo de 2014.

Monday, December 30, 2013

Auto-confiança

Temperaturas extremas no hemisfério norte (-30°C, alguém?) e no hemisfério sul (acho 38°C igualmente desnecessário) e cadê motivação para escrever?

Aí, quando a gente encontra a motivação, bate aquele desespero paralisador sobre a tese, o feedback da banca, a carreira acadêmica etc.

Nessas horas, sempre releio esse post (em inglês). Tem coisas bem importantes aí para a gente repetir como mantra três vezes por dia, no mínimo.

Um trecho:

"Não posso esperar fazer a tese de doutorado perfeita, então, preciso parar de tentar. E eu também sequer deveria querer isso, porque ela será menos lida que um e-book auto-publicado sobre a história das escovas para higienização de banheiros. Eu também não posso agradar a todo mundo. E eu também não deveria querer, a não ser que meu objetivo seja produzir o trabalho mais banal e estéril da história."

-- que é minha tradução livre de:

"I cannot expect to write a perfect PhD, so I need to stop trying. Nor should I want to, since it’ll be read less than a self published ebook on the history of toilet brushes. I also cannot please everyone. Nor should I want to, unless my aim is to produce the most sanitised, banal piece of work in history."

Um 2014 produtivo a todos.

Saturday, December 28, 2013

R.I.P. Peter Geach

Se não fosse pela Elizabeth Anscombe (coincidentemente!), eu diria que a pessoa que mais mudou (embora indiretamente) o rumo dos meus interesses acadêmicos nos últimos anos foi Peter Geach. A descoberta do tomismo analítico foi o penúltimo empurrãozinho que faltava para minha conversão à filosofia medieval.

E eis que, dia 21 de dezembro agora, morreu Peter Geach.

O Guardian publicou um obituário interessante, enfatizando a importância de Geach como filósofo católico.

John Haldane também escreveu um obituário, publicado no blog do Leiter, ressaltando as contribuições filosóficas de Geach.

Tendo feito um curso com o Haldane, arriscaria dizer que ele deve ser mais católico que o Geach (mas vá saber...), mas o texto bem curto dele dá uma idéia bem mais ampla, se mais especializada, das contribuições filosóficas de Geach, para além do tomismo analítico. Quem já ouviu falar do problema Frege-Geach (mais aqui) sabe bem disso...

Monday, December 2, 2013

Riso

Não tenho nada a dizer sobre esses ditos comediantes que adoram fazer piada sobre estupro, gays, mulheres feias, gente pobre etc. É importante que eles sejam denunciados (e respondam) pelos crimes que cometem, mas - ao menos atualmente - não tenho disposição para ficar argumentando contra esse tipo de gente.

Prefiro, então, só citar Calvin Normore, um dos grandes professores que tive aqui em Montreal:

"What's the function of laughter in human life? Well, one key function I think it is to level power. We laugh at the powerful and in laughing at the powerful we to some extent redress their power by making them seem and therefore making us behave with respect to them less powerful than they are. Okay, now when you laugh at people who are powerless, then you to some extent disempower them further."
(Daqui: https://www.youtube.com/watch?v=KB7n9iPxKIQ)

Basta.