"Se não fosse pela Elizabeth Anscombe (coincidentemente!), eu diria que a pessoa que mais mudou (embora indiretamente) o rumo dos meus interesses acadêmicos nos últimos anos foi Peter Geach."Notem que eu ressalto a importância da Anscombe na minha formação. Ela não foi menos importante na história da filosofia. Embora o próprio Haldane se contenha e diga da Anscombe que ela*
"certamente deve ser a maior filósofa mulher que conhecemos",Roger Scruton é menos econômico em sua avaliação, e diz que Anscombe foi,
"talvez, a última grande filósofa que escreveu em língua inglesa."Em inglês, Scruton diz "perhaps the last great philosopher writing in English", sem especificar gênero: a última grande pessoa a escrever filosofia em língua inglesa.
Anscombe foi aluna de Wittgenstein, a grande autoridade em sua obra. Editou e traduziu seus livros para a língua inglesa. Dizem que Anscombe cunhou o termo "consequencialismo". Anscombe é um dos maiores nomes do tomismo analítico. Anscombe é uma figura-chave para a ética da virtude: atribui-se a seu "Modern Moral Philosophy" o resgate do interese pelo assunto. Há essa lenda de que C. S. Lewis deixou de escrever sobre teologia depois de perder um debate para Anscombe. O artigo da Stanford Encyclopedia of Philosophy começa descrevendo Anscombe como uma das mais brilhantes filósofas (novamente, sem especificação de gênero, em inglês) do século XX.
E eis que.
E eis que o Telegraph publica um obituário do Peter Geach em que o autor diz, sem qualquer qualificação, que
"sem as milhares de horas de conversa que Anscombe teve com ele [Geach], a filosofia dela jamais teria atingido a eminência que atingiu."E qual indício que temos disso? Qual o argumento oferecido pelo autor do obituário? Nenhum. E nenhum.
Isso é uma indicação de que o sexismo na filosofia não está só dentro da filosofia, mas transborda nos meios de comunicação, nas mãos de gente incompetente (há outros problemas graves com o conteúdo do obituário, alguns deles sugeridos nos comentários dos leitores do Telegraph ao final da página). Infelizmente (?), Anscombe não é a única a sofrer esse tipo de violência de gente desqualificada.
Porém, como nem tudo está perdido, o Eric Schliesser nos faz o favor de levantar o ponto absurdo do texto do Telegraph e elaborar um pouco suas críticas a ele. O texto de Schliesser começa com uma idéia bem pertinente:
"Em uma curiosa falta de simetria, o obituário não atribui a Anscombe nenhuma responsabilidade pela eminência ou pelas realizações de Geach."Infelizmente, o obituário do Telegraph não é assinado, pois eu gostaria de saber quem escreveu tamanha atrocidade. Resta que nos consolemos com o texto do Schliesser (em inglês)
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*todas as traduções são traduções minhas